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A brutalidade silenciosa da fome

Por Ricardo Guerra
 
Josué de Castro (1908-1974) foi um médico, pesquisador e professor brasileiro que estudou os problemas da fome e da miséria no Brasil.

O seu livro "Geografia da Fome" é uma referência mundial sobre a temática relacionada à pobreza, à miséria e à fome e revelou ao mundo uma realidade negligenciada e escondida pelas autoridades: "as causas da fome não são naturais e sim sociais".

Foi observando a centralidade dos mangues no cotidiano das pessoas que migravam para o Recife - em busca de melhores oportunidades de vida - que a problemática da fome saltou aos olhos de Josué de Castro.

Conforme suas próprias palavras:

"A lama dos mangues de Recife, fervilhando de caranguejos e povoada de seres humanos feitos de carne de caranguejo, pensando e sentindo como caranguejo - esta foi a minha Sorbonne".

Suas pesquisas,  inicialmente realizadas em bairros operários da capital pernambucana (no início do século XX), o conduziram à irrefutável conclusão:

O fenômeno da fome é uma catástrofe social absolutamente evitável;

E não decorre de uma situação relacionada a condições físicas, climáticas e étnicas, como se tentava justificar naquela época e, até mesmo nos dias atuais, ainda tentam usar essa falácia como forma de argumento.

Através das histórias de vida que estudou, Josué foi compreendendo que a fome não era uma expressão ou um atributo específico dos mangues:

Os mangues apenas atraíam os homens famintos do entorno da região;

Particularmente da zona da seca e da zona da cana-de- açúcar, “onde a indústria açucareira esmagava, com a mesma indiferença, a cana e o homem, reduzindo tudo a bagaço".

Na verdade, percebeu Josué, “o mangue - às margens do Rio Capibaribe - era a terra de promissão, na qual pessoas em condições precárias de vida vinham se aninhar na lama, em busca do maravilhoso ciclo do caranguejo". 

No decorrer do processo que foi lhe desvendando a terrível realidade da fome, escreveu:

"No mangue, os homens assumem a condição de ser anfíbios, habitantes da terra e da água, meio homens e meio bichos";

Ali, "os homens se faziam irmãos de leite dos caranguejos… alimentados na infância com caldo de caranguejo - um leite feito de lama”.

Sendo especialmente marcante o registro que fez dessa situação:

"A impressão que eu tinha, era de que os habitantes dos mangues – homens e caranguejos nascidos à beira do rio – à medida que iam crescendo, iam cada vez se atolando mais na lama… enquanto se arrastavam para poder sobreviver".

Nesse contexto, Josué de Castro percebeu que a fome não age apenas sobre os corpos das suas vítimas, "consumindo a carne, corroendo os órgãos e abrindo feridas na pele, mas também age sobre o espírito e sobre suas estruturas mentais".

Sobre isso, sentenciou:

"Nenhuma calamidade pode desagregar a personalidade humana tão profundamente e num sentido tão nocivo quanto a fome… a imperiosa necessidade de se alimentar faz os instintos primários serem despertados e o homem, como qualquer outro animal faminto, demonstra uma conduta mental que pode parecer das mais desconcertantes".
O poeta Manuel Bandeira, representou em "O bicho", uma expressão terrível dessa realidade por Josué de Castro revelada:

"Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem".

EXPRESSO DA MEIA-NOITE: CADERNO MENSAL
21° EDIÇÃO

A 21° edição do Caderno Mensal do Expresso da Meia-Noite revisita Josué de Castro, um dos autores brasileiros mais importantes cujo legado desmascarou, aos olhos do mundo, as causas da fome - razão pela qual foi "cuidadosamente" conduzido ao ostracismo por seus algozes, os mesmos que diuturnamente agem a serviço do imperialismo, promovendo a destruição do Estado brasileiro e saqueando a nossa nação. 

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