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segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Festa no seringal

O ano não se sabe exatamente qual era, tão pouco quem estava na prefeitura - típica forma
envirense de se fazer lembrar a memória coletiva à outra pessoa de Envira - o que se sabe
é que festa no Seringal era sempre uma alegria, e como dizem, "pense numa festa
animada".

Esta recordação é de uma festa que de fato aconteceu, porém não será comentado em que
comunidade ocorreu, tal qual nomes de quem a presenciou.

De tempos em tempos cada comunidade ribeirinha organizava sua festa. Pessoas de outros
seringais viajam pelos rios e igarapés de Envira para irem a tais festividades, que se davam
pelos mais variados motivos: festejos religiosos, aniversário de pessoas que gozavam de
prestígio, ou o simples fato de festejar algo.

Certa vez, uma família de uma comunidade promoveu uma festa apenas para festejar. Era
verão, época de piracema no rio e peixe escalado não faltava, fazia "lama", como se diz lá
em Envira. Mataram porcos, galinhas caipiras e um boi, assim carne para fazer um assado
tinha no "balde", e como em toda festa de seringal, não podia faltar bebida, que geralmente
era cachaça, posto que cerveja necessitava de refrigeração, coisa que neste tempo ainda
não era possível. Vale a menção que algumas pessoas, por sua conta, levavam as famosas
garrafas de álcool da tampa azul, a fim de fazer batidas com leite condensado, numa
mistura intitulada "leite de onça", ou tigre.

A festa se dava em um final de semana com lua cheia para clarear o céu. Começava no
sábado pela manhã e terminava domingo a noite. Sua realização foi comunicada a outras
comunidades, assim como em Envira sede.

Era de costume que festas desta grandeza recebessem batelões com dezenas de pessoas,
e portanto, a comida e a bebida eram em grandes quantidades, visto que quem organizava
a festa não queria levar a fama de "miseravi", ou "suvina". Lugar para dormir não era
necessário, pois as pessoas podiam dormir em suas nos batelões, atá-las embaixo das
fruteiras. Portanto, comer, beber e dormir não seria problema, mas e a música para animar
esta festa?

Música não podia faltar, era tão importante quanto a comida e tinha que ser animada, aliás
a festa era para as pessoas dançarem até dizer chega. O terreiro capinado e preparado
tinha que levantar poeira, e os pés encardidos. Mas como se fazia a música?
Em algumas festas tinham os "tocadores", grupo de pessoas da comunidade, ou de outros
lugares que se reuniam para tocarem nestas festas. Nunca ensaiavam porque
simplesmente não tinham tempo para se encontrarem a não ser nestas ocasiões. Tocavam
de ouvido e muitos dos instrumentos eram feitos por eles mesmo. A beleza de suas
músicas eram esta autenticidade.

Porém nesta festa não teve tocadores, mas teve música e foi tocada num gravador a pilha
utilizando fitas. Fitas com nomes como Pinduca, Bartô Galeno, entre outros tantos
apreciados pela população ribeirinha, tocaram neste dia. É como dizem "festa no Seringal
basta um gravador a pilha e umas fitas para a poeira levantar".

No final da tarde de sábado, logo após terminar um jogo de futebol, um clássico entre duas
comunidades, disputado no peladão - campo de futebol da comunidade - se iniciou a festa.
De imediato ligaram o gravador, colocou-se a primeira fita do Pinduca, já tinha peixe
escalado assado com macaxeira, caldeirada de galinha caipira e a brasa já espera as
carnes de porco e boi para assar.

No terreiro, as pessoas já se animavam e começavam a dançar, a medida que as pessoas
dançavam, a poeira subia e a alegria contagiava. Devia ser umas 6:00 da tarde, ainda havia
um pouco de luz solar, mas já começava a cair a noite, por isso uma fogueira foi feita para
iluminar, assim como acenderam as lamparinas, que com a lua cheia que dizia se produzia
uma luz muito bonita.

Deu 7, 8, 9 da noite, a festa animada comia no centro, bebida, comida a vontade, mas de
repente o gravador parou. - O que aconteceu? - disseram alguns - Porquê parou a música?
- questiovam outros. Sem música a festa não podia continuar, logo perceberam que as
pilhas estavam gastas e foram verificar na casa e nós batelões se havia pilhas, mas nada,
tinha um batelão com um gravador, mas suas pilhas igualmente estavam gastas.

Rapidamente uma pessoas desceu o barranco pegou seu casco, ligou o motor e saio
disparado, disse que iria em outra comunidade pegar umas pilhas. Enquanto isso, as
pessoas já felizes entre a comida e a bebida, começaram a bater umas latas e fizeram de
galões de querosene tambores, assim de momento, entre batucadas e cantigas a festa
continuava a levantar poeira.

Passou-se 2 horas até que voltasse a pessoa com as pilhas novas, na caixa, e já em
seguida se as colocou no gravador e a música do Pinduca voltou a alegrar o ambiente.
Já pelas tantas horas da madrugada o gravador travou - O que foi desta vez? - questionou
quem organizava a festa. Foram verificar e a fita havia enrolado, estava de uma forma que
não dava para destravar e com este gravador não se podia continuar. Logo lembraram do
gravador que tinha no batelão e o trouxeram para colocar as pilhas e continuar a festa.
Pegaram a fita do Bartô Galeno, colocaram no novo gravador e a alegria comia no centro, e
a festa foi até o sol raiar.

No dia seguinte só alegria e boas recordações. Durante o dia foi de banho no igarapé e
muito caldo para curar a ressaca. No final do dia teve a despedida e todos voltavam nos
seus batelões a suas comunidades. E no final de tudo é sempre como dizem "Festa no
Seringal é sempre animada, para acontecer precisa só de um gravador e algumas fitas.

Texto: Menino Anônimo

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